Homenagem – Amigo MZ

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Como me senti mal por ter me esquecido dela por quase um mês. Isso nunca tinha acontecido antes. Pensei e pesei sobre as coisas e só posso culpar o trabalho e outras tantas coisas loucas que estão acontecendo na minha vida nestes últimos dois meses.

Ela voltou de uma viagem e foi logo me procurar e eu acabei sempre me esquecendo dela, ou seja, lembro sempre que preciso ligar para ela mas as coisas do dia a dia acabaram me fazendo esquecer dela.

Mas depois de tantos desencontros, conseguimos finalmente marcar para nos encontrar neste último sábado num restaurante chinês simples, pequeno e barulhento no bairro da Liberdade!

O encontro foi todo planejado e pensado por ela pois ela trouxe várias coisas para mim, inclusive uma lista com coisas que queria conversar (ou compartilhar) comigo, rs. Vi fotos de sua viagem e de seus parentes, ouvi ela resumir filmes que assistiu (e me estimulou a assistir também), falou muito sobre seus planos para este ano como também falou sobre novas viagens que pretende fazer.

Mas a melhor parte foi o que ela me trouxe e que me entregou logo que entramos no restaurante. Eram recortes de jornais, desenhos e textos que seu filho (ou seja, meu amigo) falecido fez e que foram guardados por ela por tanto tempo!

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Acho que já contei aqui uma vez sobre esse meu amigo. Ele era uma das pessoa mais espirituosas que já conheci. Era muito querido por maioria dos seus amigos (inclusive eu) por ser engraçado, simples, bondoso, carinhoso e extremamente inocente.

E um dos poucos arrependimentos que tive nessa vida foi não ter ido visitá-lo já totalmente debilitado no leito do hospital pois outros amigos me falaram que os pais não queriam visitas e ele também já não estava nem reconhecendo as pessoas.

Mas desta vez que reencontrei com a sua mãe não conversamos muito sobre ele, mas me lembro bem que fizemos isso (conversamos bastante sobre seu filho) no nosso último encontro que tivemos que aconteceu no ano passado, antes de sua viagem.

Acho que faz tempo que ela se conformou com a perda do seu filho. Hoje vive sua vida da melhor maneira possível – participando de muitas atividades físicas e sociais. Mas percebe-se claramente que algo morreu dentro dela.

Última coisa que ela me falou é que levaria as últimas cinzas que restaram do filho para jogar no mar nesta próxima viagem que faria a Fernando de Noronha. Pois dessa maneira não há mais nada que a prende nesta vida.

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Seguem abaixo dois textos que meu amigo MZ escreveu.

 

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O primeiro foi publicado no jornal da escola onde ele estudou.

Percebe-se claramente que ele é espirituoso e brincalhão! Mas o texto mostra claramente um pouco de como ele se sentia na época.

Há muita contradição neste seu texto, mas o mais interessante é que ele usa exatamente isso para rir de si mesmo e mostrando sua “preocupação” com a vida presente a e vida após a morte!

 

EU

Eu… sou o careta da classe, o “CDF” da classe, o chinês da classe e o quatro-olhos da classe, menos eu, só isso que não sou. Sou um pedaço do Pio XII, um pedaço… Nada mais do que isso. Sou como um bolo indigerível, só me veem por fora e o recheio nunca verão.

Sou o baixinho dos altos, o alto dos baixinhos, o “babaca” dos “bacanas” e o “bacana” dos  “babacas”. É duro ser “o chinês” no Brasil, o idiota no mundo dos “tô por dentro”.

Ridículo, me preocupo com o meu passado e o dos outros, com o meu futuro e o dos outros. Com o meu presente eu não me preocupo, porque sei o que cai em mim, mas não sei o que cairá, e é isso que temo, de não viver e me preocupar com a vida. Mas, mais do que isso, eu me preocupo com a vida após a morte, se é que os outros acreditam.

Mas, já que eu sou eu e sei que não estou vivendo, quero começar a vida nova com alguma colaboração.

MZ – 5a. série E (Colégio Bandeirantes, 1999)

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Ao descobrir a doença, meu amigo foi passar um tempo nos EUA para fazer uns tratamentos alternativos. Eu realmente não sabia da gravidade da doença, por isso quando ele voltou ao Brasil pensei que já estava “curado”.

Mas depois soube que ele começou a fazer quimioterapia e sua saúde foi piorando dia após dia, e foi exatamente nessa época que me aproximei mais dele – fazendo mais visitas.

Esse segundo texto foi escrito para sua namorada Elena quando já estava ciente da gravidade de sua saúde.

Eu de certa maneira invejo seu uso de palavras: não há como não notar e sentir uma beleza sutil e funesto, mas ao mesmo tempo uma tranquilidade resignada ou conformada com tão poucas e simples palavras.

 

A vida, Elena, a minha vida, é como uma vela na escuridão que, uma vez acesa, revela toda a beleza da luz e tudo que a rodeia.

Mas também revela sua efemeridade e a tua ausência.

O único jeito de se conservar uma vela é apagando sua chama.

Hoje eu a apago, na esperança de um dia reacender.

Não há nada de novo, não há mal no sono quando não há você.

 

Obs.: A cinza que a mãe jogaria no mar seria da Elena. Ela ficou com um pouco das cinzas do MZ, mas quando foi morar no exterior deixou para “sua sogra” guardar.

Sempre disse à mãe do MZ que acha difícil achar outro amor como o do MZ. Pensou em nunca se casar e realmente passaram mais de 16 anos.

Minha amiga nunca pode falar muito sobre isso porque é um assunto muito delicado. Não podia tomar partido do que a Elena quer fazer da vida. Sentia-se honrada com o que ela disse sobre o amor que sentia pelo MZ, mas nunca poderia encorajá-la a realmente nunca achar um novo amor.

Como soube recente que a Elena irá se casar depois de mais de 16 anos, achou melhor jogar a cinza que tinha guardada para ela no mar.

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Sim, sinto saudade do meu amigo.

Sempre que me lembro dele, só lembro de coisas boas que tivemos juntos no passado e inevitavelmente não consigo deixar de soltar um sorriso ou uma risada!

Toda vez que me lembro dele, lembro do seu sorriso maroto. Não penso como seria bom tê-lo vivo comigo no presente, mas sinto que o seu espírito me acompanha.

E nas vezes em que penso na vida após a morte também me lembro dele. Tenho quase a plena convicção que serei bem recebido e conduzido por ele no futuro.

 

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